Resenha: Nebula - Apollo (2005)
Dá pra se que esperar praticamente tudo de um disco de rock hoje em dia. Adolescentes que despejam lamúrias em letras adocicadas, virtuose saturada, músicos que apostam em mesclas pitorescas de estilos, gente que tenta reencarnar os anos 80 pela enésima vez. É bem por aí mesmo. Vale tudo. Até apostar ainda em fórmulas mais ortodoxas – e que muitos já consideram ultrapassada -, sem misturas complexas e embasada por uma atmosfera retrô temperada com pitadas inofensivas de clichê.
Em um sentido amplo, podemos dizer que o trio californiano Nebula cumpre perfeitamente qualquer uma das diretrizes nesta última definição. Formado em 1997 por Eddie Glass (guitarra/vocais), Rubem Romano (bateria) e Mark Abshire (baixo), todos oriundos do Fu Manchu, a banda acaba de lançar Apollo, seu sétimo registro de estúdio, pelo selo Liquor & Poker.
Mesmo sem contar atualmente com um baixista fixo (Eddie Glass gravou também todas as linhas de baixo) e com uma produção demasiadamente comportada, as idéias explosivas e despojadas de Glass continuam atestar que ele se empenha cada vez mais em se aperfeiçoar nos ensinamentos da cartilha de gente como Stooges, MC5 e Mudhoney. Com isso, vocais fora de métrica, vagabundagem implícita e confiança incontestável no poderio bélico do exército dos três acordes tornam-se facilmente a tônica nas 14 faixas. Não que os trabalhos anteriores do Nebula tenham sofrido com algum tipo de confusão de arranjos em termos quantitativos. A banda sempre apostou suas fichas no estilo ‘direto e reto’ para dar o recado. Tudo continua lá, em boas sacadas de bateria, riffs poderosos, dinâmicas psicodélicas, muitos solos com wah wah e linhas de baixo pegajosas. O fato é que, em Apollo, as coisas parecem estar em seu devido lugar e funcionam com eficiência, no momento exato. Mas é aquele tipo de álbum que pode demorar um pouco para se acostumar. A pegada da banda está mais lapidada e sem receio de cometer erros, o que pode desagradar logo nas primeiras audições. Sinais de maturidade? Bom, aí depende do sentido da coisa. Afinal de contas, como foi profetizado em outros tempos, 'rock é rock mesmo'... e ponto final.
Loose Cannon: levada sincopada, dissonâncias, phasers... e tudo que você espera do Nebula, bem na sua frente. Uma das melhores do play.
Fever Frey: refrão grudento e marcante. Pouco mais de dois minutos de música.
Lightbringer: riffão explosivo, wah wah e a primeira referência clara aos Stooges.
Future Days: entra em ação uma veia experimental/Zepeliniana, mesmo q não-declarada. Totalmente diferente de tudo que já ouvi da banda. Levada marcial e intencionalmente hipnótica. Moderninhos de plantão provavelmente aprovariam.
Ghost Ride: simples e eficiente, com um bom solo do mais puro feeling (marca registrada de Glass).
The Alchemist: levada mais trabalhada, com destaques para o vira-revira, as variações rítmicas e o preenchimento preciso da bateria.
Trapezuim Procession: mais uma breve vinheta no estilão da banda: ruídos espaciais, distorção fuzz e até cítara.
Controlled: direto ao ponto, com passagens que chegam a lembrar MC5 e Mudhoney.
The Eagle Has Landed: psicodélica na medida certa, com um boa sacada de refrão e linhas de baixo mais articuladas.
Fruit Of My Soul: intenção pesada e distorção fuzz na guitarra mais ‘na cara’. Sei lá. Meio dispensável.
Decadent Garden: em uma primeira audição, soa um tanto irreverente. A levada lembra um bolerão mais acelerado ou algo próximo disso. Se teve a intenção de ser ‘a diferente’ do restante, conseguiu. Mas de forma positiva. Tem personalidade.
Wired: mais um interlúdio. Desta vez, com uma boa seqüência de riffs, pelo menos.
Opiate Folat-Orbit: lisérgica, usa e abusa de phasers e efeitos e vocais desencanados. Termina com mais um pedaço de Orbit, a vinheta de abertura.
(Fernando Cappelli)
