Monday, January 30, 2006

Resenha: Nebula - Apollo (2005)

Dá pra se que esperar praticamente tudo de um disco de rock hoje em dia. Adolescentes que despejam lamúrias em letras adocicadas, virtuose saturada, músicos que apostam em mesclas pitorescas de estilos, gente que tenta reencarnar os anos 80 pela enésima vez. É bem por aí mesmo. Vale tudo. Até apostar ainda em fórmulas mais ortodoxas – e que muitos já consideram ultrapassada -, sem misturas complexas e embasada por uma atmosfera retrô temperada com pitadas inofensivas de clichê.
Em um sentido amplo, podemos dizer que o trio californiano Nebula cumpre perfeitamente qualquer uma das diretrizes nesta última definição. Formado em 1997 por Eddie Glass (guitarra/vocais), Rubem Romano (bateria) e Mark Abshire (baixo), todos oriundos do Fu Manchu, a banda acaba de lançar Apollo, seu sétimo registro de estúdio, pelo selo Liquor & Poker.
Mesmo sem contar atualmente com um baixista fixo (Eddie Glass gravou também todas as linhas de baixo) e com uma produção demasiadamente comportada, as idéias explosivas e despojadas de Glass continuam atestar que ele se empenha cada vez mais em se aperfeiçoar nos ensinamentos da cartilha de gente como Stooges, MC5 e Mudhoney. Com isso, vocais fora de métrica, vagabundagem implícita e confiança incontestável no poderio bélico do exército dos três acordes tornam-se facilmente a tônica nas 14 faixas. Não que os trabalhos anteriores do Nebula tenham sofrido com algum tipo de confusão de arranjos em termos quantitativos. A banda sempre apostou suas fichas no estilo ‘direto e reto’ para dar o recado. Tudo continua lá, em boas sacadas de bateria, riffs poderosos, dinâmicas psicodélicas, muitos solos com wah wah e linhas de baixo pegajosas. O fato é que, em Apollo, as coisas parecem estar em seu devido lugar e funcionam com eficiência, no momento exato. Mas é aquele tipo de álbum que pode demorar um pouco para se acostumar. A pegada da banda está mais lapidada e sem receio de cometer erros, o que pode desagradar logo nas primeiras audições. Sinais de maturidade? Bom, aí depende do sentido da coisa. Afinal de contas, como foi profetizado em outros tempos, 'rock é rock mesmo'... e ponto final.


Faixa-a-faixa:

Orbit: vinheta de abertura.

Loose Cannon: levada sincopada, dissonâncias, phasers... e tudo que você espera do Nebula, bem na sua frente. Uma das melhores do play.

Fever Frey: refrão grudento e marcante. Pouco mais de dois minutos de música.

Lightbringer: riffão explosivo, wah wah e a primeira referência clara aos Stooges.

Future Days: entra em ação uma veia experimental/Zepeliniana, mesmo q não-declarada. Totalmente diferente de tudo que já ouvi da banda. Levada marcial e intencionalmente hipnótica. Moderninhos de plantão provavelmente aprovariam.

Ghost Ride: simples e eficiente, com um bom solo do mais puro feeling (marca registrada de Glass).

The Alchemist: levada mais trabalhada, com destaques para o vira-revira, as variações rítmicas e o preenchimento preciso da bateria.

Trapezuim Procession: mais uma breve vinheta no estilão da banda: ruídos espaciais, distorção fuzz e até cítara.

Controlled: direto ao ponto, com passagens que chegam a lembrar MC5 e Mudhoney.

The Eagle Has Landed: psicodélica na medida certa, com um boa sacada de refrão e linhas de baixo mais articuladas.

Fruit Of My Soul: intenção pesada e distorção fuzz na guitarra mais ‘na cara’. Sei lá. Meio dispensável.

Decadent Garden: em uma primeira audição, soa um tanto irreverente. A levada lembra um bolerão mais acelerado ou algo próximo disso. Se teve a intenção de ser ‘a diferente’ do restante, conseguiu. Mas de forma positiva. Tem personalidade.

Wired: mais um interlúdio. Desta vez, com uma boa seqüência de riffs, pelo menos.

Opiate Folat-Orbit: lisérgica, usa e abusa de phasers e efeitos e vocais desencanados. Termina com mais um pedaço de Orbit, a vinheta de abertura.

(Fernando Cappelli)

Sunday, January 29, 2006

Resenha - Scott Reeder- Tunnelvision Brilliance (2005)

Considerado uma das pedras fundamentais para toda e qualquer teoria, tese ou antítese do universo do stoner rock, o Kyuss começou sua odisséia musical em meados dos anos 80 e durou até a metade exata da década seguinte. Mesmo com uma história de vida marcada por uma suposta marginalização do mainstream da época, o quarteto do deserto de Palm Springs (Califórnia- EUA), fez escola entre os rockers do mundo todo e até hoje é tido como uma base sólida de influência para muitos. Mas o fato é que, mesmo com sua extinção um tanto precoce e confusa, a banda que frequentemente tinha seu som comparado ao de um ‘Black Sabbath ainda mais lisérgico’ ainda continua render frutos musicais interessantes pelos lados do Tio Sam.
Não bastasse todo hype atual que gira em torno do Queens Of The Stone Age (capitaneado por seu ex-guitarrista Josh Homme), da boa aceitação na cena alternativa dos álbuns-solos de Brant Bjork (ex-baterista), e das inúmeras bandas nas quais o vocalista John Garcia empresta sua voz sussurrante, finalmente chegou a vez do baixista Scott Reeder promover seu debut: ‘Tunnelvision Brilliance’ conta com treze faixas e facilmente pode funcionar como um contraponto bem sacado para as performances intensas do baixista na época do Kyuss. Isso mesmo. Não espere por aqueles timbres distorcidos e graves em excesso, nem composições bate-cabeça, com riffs demolidores. Em ‘Tunnelvision’, o que impera são dinâmicas, dedilhados de violão, composições introspectivas e até uma ‘veia pop’ indiretamente enxertada na maioria das músicas.
Reeder, a exemplo de seu ex-parceiro de banda Brant Bjork, também optou pelo estilo ‘one man band’: gravou todos os instrumentos do álbum e mandou ver nos vocais. E justamente neste setor que uma influência notória do rock progressivo vem à tona. David Gilmour (vocalista/guitarrista do Pink Floyd) provavelmente ficaria orgulhoso de seu pupilo do deserto. Músicas como ‘The Silver Tree’, ‘When’ e ‘To Na End’ tem uma essência ‘Floydiana’ cuspida e escarrada. Outro bom destaque também é a melancolia moderna de ‘For Renne’ e a hipnótica ‘Away’.
Bom álbum. Boas músicas, boas sacadas. E digere bem mais fácil se você não se preocupar tentar criar qualquer tipo de vínculo mirabolante com o Kyuss.

(Fernando Cappelli)

Track List

1- When I Was
2- Thanks
3- The Silver Tree
4- Away
5- Diamond
6- When?
7- For Renee
8- The Day of Neverending
9- Queen of Greed
10- Fuck You All
11- To an End
12- The Fourth
13- As I'm Dreamin'

Saturday, January 21, 2006

Enquanto isso, em Springfield

- Marge, não confie tanto na sobremesa. Tudo bem que ela é gostosa e grátis. Mas nem sempre está com a razão...

Thursday, January 19, 2006

Hard indie folk´n´roll

O desafio foi proposto em uma noite qualquer de bate-papo no MSN, pelo meu grande amigo Luiz Fernando Pinotti Silva, que além de um contista de grande talento e dono de um gosto musical refinado, também se mostra um incansável nas boas idéias.
Bom, o lance era o seguinte: trocar, ouvir e resenhar alguma música que você sabia não fazer parte diretamente do cotidiano musical do outro. E eu, como um inveterado consumista e colecionador de sons, ruídos e melodias aceitei de imediato.
Luiz então me mandou 'John Wayne Gacy, Jr.', música do álbum ‘Come On! Feel The Illinoise’, do compositor norte-americano Sufjan Stevens, provavelmente um dos ‘bãbãbãns’ mais atuantes na cena gringa do indie/folk moderno.
De imediato, gostei do que ouvi, apesar de algo totalmente diferente do que usualmente estou acostumado em meu universo banhado a stoner rock e outras barulheiras saturadas. O estilo introspectivo da música se baseia em uma dinâmica que mescla acordes minimalistas de piano (semelhante a algumas harmonias que bandas como Elbow e Belle & Sebastian adoram usar), com um dedilhado simples de violão e, com isso, compõe a fórmula ideal que serve de base para contar uma história sórdida e que poderia ser facilmente encontrada em qualquer álbum feito pelo Marilyn Manson.
E se o diabo é o pai do rock e Bob Dylan o da folk music, o nome do novo garoto-prodígio Sufjan Stevens pode ser considerado um neologismo que veio para ‘chutar a porta da frente’ com tudo mesmo.
O título da música imediatamente chamou atenção. Sabia que já havia ouvido ou lido o nome John Wayne Gacy em algum lugar. Após uma rápida pesquisa, constatei que se tratava de um dos mais conhecidos serial-killers da terra do Tio Sam. O cara se vestia de palhaço, era tido por todos os vizinhos como um cidadão-exemplar. Mas nem por isso deixou de violentar, matar e guardar os corpos em decomposição de 29 jovens no porão da sua casa, em Illinois, Chicago (mesma terra-natal de Stevens). E mesmo debaixo de tanta melancolia e sutileza instrumental, são utilizadas palavras contundentes como vermes, pedaços em decomposição, cativeiros sufocantes e beijos da morte sem metáforas, em um contraponto sarcástico e cruel que imediatamente me pensar em como seria a concepção de uma canção Tom Jobim sobre as peripécias do nosso Chico Picadinho...

...e, porra, seria o máximo!

Monday, January 16, 2006

I don´t wanna be a fucking rockstar, baby

O site www.psicodelia.rg3.net logo deve disponibilizar uma entrevista feita com o Saturn XII. Confira aí algumas das perguntas da reportagem. E tragam logo nossas 1000 toalhas brancas e a psicina de iogurte de morango.


Quais os nomes e instrumentos de cada um?

A banda é composta por Márcio Gomes (vocal), Vinícius Castelli (guitarra), Jean Gantinis (guitarra), Adilson Ribeiro (baixo) e Fernando Cappelli (bateria).

Quais são as influências de cada um em particular e da banda em geral?

As influências basicamente se desmembram entre o hard rock da década de 1970 e o stoner rock, (estilo de som mais pesado, também com essência no panorama dos anos 70). No meio disso tudo, há também o background particular de cada um, sempre presente nas músicas: blues, metal, grunge, jazz. Na verdade existem algumas poucas unanimidades entre nós: Black Sabbath (claro!), Nebula (banda californiana surgida em 1997). Sem falar, é claro, também do churrasco e da cerveja gelada.

Há quanto tempo vocês tocam?

Eu (Fernando), o Vinícius, o Márcio e o Adilson tocamos há cerca detreze, quatorze anos. O Jean, que é tipo um ‘pai de todos’ do rock aqui no ABC, deve ter mais de 25 anos de guitarra. Militamos pela cena rocker daqui há um tempão, com diferentes bandas. Mas só agora é que realmente conseguimos juntar esse time e fazer um som de verdade, do nosso jeito.

Qual a origem do nome da banda?

É o nome da décima segunda lua de Saturno (também chamada de Helene). Na verdade, queríamos um nome com essa temática espacial - bastante comum no stoner rock -, e ao mesmo tempo bem simples. O nome ‘Saturn’ surgiu espontaneamente, logo nos primeiros ensaios. O twelve (12) veio na seqüência, para dar um pouco mais de personalidade.

Por que a necessidade de cantar em inglês?

Não vemos isso como uma necessidade, e sim como uma forma mais eficiente na hora de criarmos nossos sons. Pode ser uma mera impressão, mas a métrica das músicas combina perfeitamente com a língua Inglesa e colabora mais para reforçar o estilo. Mas não temos nenhum tipo de preconceito com o Português. Muito pelo contrário.


Fazendo uma alusão ao nome da banda, qual a distância entre o planeta de vocês e a realidade, metaforicamente falando? (já que Saturno fica a mais de dois planetas de distância da Terra).

Uma realidade baseada em metáforas deixa tudo mais subjetivo e enigmático. Com isso, essa suposta distância pode variar muito. Tudo gira em torno de uma questão interpretativa. Nossas músicas têm letras bem despojadas, com algumas temáticas psicodélicas e até críticas. E nada estritamente intelectualizado também. Ainda confiamos na premissa do rock que é feito pra ser divertido e contundente na medida certa.

Quais são os planos de vocês? Quando sai o primeiro álbum?

O ano passado foi bem satisfatório. A banda começou em fevereiro, com gás total. Compusemos uma boa quantidade de material rápido, cerca de 10 músicas em seis meses. Depois, conseguimos fazer alguns shows legais aqui pelo circuito paulista. Testamos os sons ao vivo e, tanto eles quanto a banda funcionaram muito bem no palco. O nosso primeiro álbum deve sair ainda no primeiro semestre de 2006. Também está em pauta fazer alguns shows em outros Estados e até tentar ir pra Argentina. Ainda são planos. Mas é sempre bom pensar grande.

O que vocês acham da situação atual de bandas independentes no Brasil?

Uma banda independente hoje em dia tem de ser encarada com o máximo possível de requintes profissionais. E isso engloba marketing, investimentos, viagens, divulgação. Tudo por conta e suor próprio. Chegar no palco e fazer um puta show é apenas uma das muitas tarefas. Para se manter na ativa do circuito independente, tem de abraçar a causa mesmo e tentar ‘vender seu peixe’ da forma mais completa possível. É redundante falar também que a agilidade e possibilidades das trocas de informações pela Internet são cada vez mais fundamentais.

Somos do ABC, uma região de onde tradicionalmente sempre proliferaram boas bandas de rock. Mas atualmente tem uma cena um tanto anêmica e estagnada. As casas de música daqui quase só abrem espaço para bandas cover, e ainda rola aquele esquema de te fazer tocar quatro horas em troca de meia-dúzia de cervejas. Isso é ridículo. Claro que, inveitavelmente, você acaba entrnado em algumas 'frias'. Mas é essencial tentar não se sujeitar mais a isso e começar encarar as coisas de outra forma.

O que é uma viagem psicodélica pra vocês?

Isso é uma coisa muito abrangente. Pra gente, funciona mais como mais uma forma de expressão, para temperar e personalizar nossos sons com riffs hipnóticos, texturas e dissonâncias viajantes. Não precisa estar necessariamente ligado a qualquer tipo de ‘viagem química’. Se bem que isso até tem algum fundamento entre nós, já que os guitarristas dessa banda são totalmente viciados em Coca-Cola.

Lisergia ou cervejas?

Cerveja, sempre. E alguma lisergia também, sem problemas. De preferência ligada em um amplificador no talo, com doses de muito peso, levadas ensandecidas e graves gordurosos.

Saturday, January 14, 2006

Capa...e espada?

Diálogo retirado filme Ivanhoé (1952):

- Senhor, vamos enfrentá-los.
- Só nós dois?
- Não. Nós quatro. Usaremos as mulheres como escudos!

Achados e Perdidos na net

A coletânea "Achados e Perdidos - Tributo valvulado aos anos 70" está na boca do forno. Até o final do mês de janeiro a Válvula Discos (www.valvuladiscos.com) coloca seu primeiro lançamento virtual de 2006 à disposição para download gratuito.
Confiram aqui, em primeira mão, a lista do que vai rolar. A banda na qual humildemente comando os tambores e pratos (Saturn XII) vai ter a honra de abrir o trabalho. Yeaaaaaaaaaa!!!!

CD 1
1. Saturn XII - Mountain - Dreams of Milk and Honey
2. ProzakMan - Focus - Hocus Pocus
3. BillyGoat - Secos & Molhados - Amor / Assim & Assado
4. Blower - Casa das Máquinas - Liberdade Espacial
5. Lazy Dog - Grand Funk - Sins a Good Man's Brother
6. Mechanics - T-Rex - 20th Century Boy
7. Água Pesada - Rita Lee - Alô, alô Marciano
8. Tomada - Mutantes - O Contrario do nada é nada
9. Cascadura - Rolling Stones - Crazy Mamma
10. Fuzzly - Budgie - Breadfan
11. Mustang - Patrulha do Espaço - Isso me Irrita / Ruas da Cidade
12. Hang the Superstars - Sweet - Rebel Rouser
13. The Rover - Syd Barret - No Man´s Land

CD 2
1. Carbura - ZZ-Top - Beer Drinkers & Hell Raisers
2. Flaming Moe - Buffalo - I'm A Skirt Lifter, Not A Shirt Raiser
3. Carro Bomba - Raul Seixas - Rock do Diabo
4. SonicVolt - Saracura - Xote de Jaguarão
5. MQN - Grand Funk - Got This Thing On The Move
6. Rock n´ Roll Soul - Mountain - Mississippi Queen
7. Flowstone - Módulo 1000 - Não Fale com Paredes
8. Tublues - Casa das Máquinas - Stress
9. Possessonica - Humble Pie - I don't Need no Doctor
10. Camarilha - Beck, Boggert & Appice - Livin' Alone
11. Kali - Secos & Molhados - Sangue Latino
12. Turbina - Motorhead - Bomber
13. Yesomar - Bixo da Seda - Trem

Thursday, January 12, 2006

Do ócio descomplicado ao transe beatleniano inconsistente


Por aqui o ano começou sem emprego e trouxe de volta aquele grande amigo ócio, tão temido e preconizado pelo homem moderno. Hospedado por aqui desde o final de dezembro, cada vez mais me desafia a encontrar formas ardilosas para lidar com ele. Bom, sei lá. Tempo de sobra para atualizar o currículo (que ainda estava com meus dados de 2001), reflexões profissionais e pessoais e amenizar o hiato criativo que tanto me assolou profissionalmente nos últimos meses de 2005, com a reponsabilidade de compactuar funções de editor, repórter e redator na revista Hot Rods. Bom também para finalmente ver os episódios da Beatles Anthology, que dei de presente para o meu pai ano passado e até então não havia tido tempo - e paciência - para ver. A compliação realmente é de primeira e vale a pena ser destrinchada com calma. Mas vou parar aqui mesmo - com esta redundância - meus comentários. Não sou a pessoa certa para se apronfundar muito no assunto. Até hoje, todos os meus 'momentos Beatles' sempre foram muito 'Rolling Stones'. Vai entender.
Abrazzzz!